Já é tempo de acabar com o monopólio dos Estados-Nações sobre a moeda?

Imagine-se vivendo na Espanha em 1630. Naquela época Estado e religião eram interligados. O catolicismo era a religião oficial do Estado. Você poderia se converter ou morrer. A igreja tinha seus dogmas, por exemplo,  que o Sol girava em torno da Terra.

Se você discordasse do status quo você seria considerado um herege. Se você fosse um herege você seria submetido à Santa Inquisição da Igreja Católica.

                                                                                              Galileu no julgamento da Santa Inquisição

Hereges poderiam se retratar publicamente, como foi o caso de Galileu, ou morrer por suas crenças, como ocorreu com Giordano Bruno.

Foi preciso séculos e gerações de reformistas para separar o Estado da Igreja. E, graças a Deus, nossas instituições evoluíram.

Mas, imagine que você é um cidadão do Império Espanhol em 1630 e alguém te dissesse que seria melhor separar o Estado da religião. Qual seria a sua reação?

Bem, estamos em 2017, e eu te farei uma afirmação tão controversa quanto àquela feita no século XVII:

O Estado e a Moeda devem ser separados, pelo bem dos cidadãos.

Por séculos nós confiamos em duas instituições para proteger o nosso dinheiro: os Estados-Nações para emitir e controlar a oferta da moeda, e os bancos para guardarem o nosso dinheiro e garantir que o pagamento não seja efetuado em duplicidade.

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Entretanto, muitas vezes tais instituições não têm as melhores das intenções. Por exemplo, o Estado pode emitir muito papel-moeda e o dinheiro que você tem no bolso pode ficar sem valor. É o que acontece com a Venezuela atualmente, conforme podemos ver no vídeo a seguir:

Os bancos também se beneficiam substancialmente disso tudo. O vídeo a seguir explica como os bancos criam dinheiro:

Simples assim: “se você imprime dinheiro você será acusado de falsificação de moeda. No entanto, caso isso seja feito por Bancos será chamado de “aumento da oferta”.

Nós não temos voz nesse acordo. Como dito por Rousseau, este é um contrato social que já existia antes de nós nascermos. Nós abrimos mão de um pouco de nossa liberdade e em troca ganhamos a proteção do Estado, inclusive a proteção do nosso dinheiro. Mas, existe uma questão antiga e ainda relevante nos dias de hoje: “Quem vigia os guardiões?”

O dinheiro é uma construção social. Ele vale tanto quanto as pessoas acreditam que ele vale. Os grãos já foram moeda, assim como o sal, depois o ouro, depois o papel-moeda lastreado em ouro, depois apenas o papel-moeda emitido pelos Estados-Nações

E nós não tínhamos outra alternativa às moedas fiduciárias e ao sistema bancário até Satashi Nakamoto publicar seu artigo.

Bitcoin e a tecnologia do blockchain abriram a caixa de pandora. Em vez de confiar nos Estados, agora nós podemos confiar em códigos e criptografia. Por isso, pensadores como Dan Tapscott nos convidam a pensar: “Não é tempo de um novo contrato social?”

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Aqui está um pensamento “herege”:

  • A livre concorrência gera eficiência: Haverão diferentes moedas que desempenharão funções diversas. Bitcoin Core, por exemplo, é a melhor reserva de valor, enquanto o BCash é o melhor método de pagamento. O fato é que haverá diferentes opções e eu poderei escolher livremente qual moeda é a melhor para mim. As melhores moedas irão se valorizar, enquanto as piores se depreciarão.
  • Total transparência nos gastos públicos: dê uma olhada nessa foto:

Essas caixas e malas cheias de Reais foram encontradas em um apartamento pertencente a um político brasileiro próximo ao Presidente da República. Eu adoraria saber o caminho através do qual os meus impostos seguiram até chegarem nessas caixas. A total transparência dos gastos públicos é outro benefício que pode ser alcançado se o dinheiro que nós pagamos para o Estado fosse registrado na blockchain. A Aragão Network tem uma interessante ferramenta que permite a transparência de seus gastos (https://transparency.aragon.one/#/). Imagine se o Estado fizesse a mesma coisa?

Eu não espero que o fim do monopólio da moeda pelo Estado ocorra tão cedo, nem que os governantes e os banqueiros abram mão dos seus poderes facilmente.

Portanto, a transição para um mundo pós moeda fiduciária não será simples. Haverá muitos problemas e imprevistos enquanto escrevemos o novo contrato social que desejamos viver.

Estou contente que não mais queimamos pessoas nas fogueiras. E para os meus colegas entusiastas das criptomoedas eu deixo este poema:

 

Não vás tão docilmente

Dylan Thomas

Não vás tão docilmente nessa noite linda;

Que a velhice arda e brade ao término do dia;

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Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda

Quando a palavra já perdeu toda a magia,

Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,

Seus débeis dons dançando ao verde da baía,

Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,

Sem saber que o feriu com a sua ousadia,

Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da

Aurora astral que o seu olhar incendiaria,

Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Assim, meu pai, do alto que nos deslinda

Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:

Não vás tão docilmente nessa noite linda.

Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Autor – Edmilson Rodrigues (CEO of Swapy Network)

Traduzido por Henrique Pimenta

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