Estadão: O que é moeda?

Monica de Bolle *, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2018 | 05h00

Poucos economistas questionam o valor da tecnologia que permite a existência de criptomoeda

Há muitos anos, quando trabalhava no FMI, fui para Papua Nova Guiné (PNG) – logo ali, acima da Austrália. A moeda de lá é a kina, cuja unidade vale hoje cerca de 30 centavos quando convertida em dólares. A kina foi criada em 1975, depois de o país se tornar independente da Austrália. O nome da moeda teve origem no idioma kuanua – há cerca de 800 idiomas e um sem número de etnias em PNG, paraíso dos antropólogos – em referência a uma concha usada como meio de troca em algumas regiões da ilha principal do arquipélago. Reparem: antes de ser papel, a moeda era concha. Não uma concha qualquer, mas concha que produzia um tipo especial de pérola.

Todas as vezes que visitei PNG apenas precisei de um punhado de kinas. Os estabelecimentos da capital, Port Moresby, também aceitavam dólares australianos. Fora de lá, as conchas, agora transformadas em papel barato, não tinham valor algum. As transações eram feitas por meio da troca de porcos, a principal fonte de proteína na dieta dos nativos. A moeda, portanto, não tinha identificação alguma com os retângulos de papel colorido emitidos pelo governo – para a vasta população fora das fronteiras de Port Moresby, os porcos eram moeda, a quantidade de porcos, a riqueza.

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Portanto, o que é moeda? Convencionou-se pensar na moeda como um passivo do governo que a emite: uma nota de R$ 2 vale, de fato, aquilo que se pode adquirir com R$ 2 desde que o governo garanta, em última instância, que respaldará esse valor a partir dos ativos de que dispõe. Quando o governo perde a capacidade de respaldar o valor da moeda que emite, a moeda é desbastada. Como? Por meio da inflação.

Contudo, a origem da moeda está mais para os porcos de PNG do que para os pedaços de papel em circulação. Antes do papel-moeda, da moeda-passivo cujo valor depende da confiança no governo que a cria e destrói, a moeda era uma mercadoria, um ativo. Moedas de ouro tinham valor não porque eram douradas e brilhantes, mas porque eram feitas de metal precioso. Moedas suínas têm ainda valor em PNG porque são vitais para a dieta e a sobrevivência. Essas moedas-mercadoria, ou moedas que são, também, ativos, cumprem as mesmas funções do papel-moeda: são usadas para cotar preços, são utilizadas como meio de troca, são poupadas para guardar valor. No entanto, não dependem da solidez de governo algum – não necessariamente – pois têm valor intrínseco, algo que o papel-moeda não tem.

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As criptomoedas, hoje atacadas por tantos economistas mundo afora e Brasil adentro, têm um quê de porcos ou conchas de PNG, não à toa já foram chamadas de ouro digital por jornalistas – o excelente livro de Nathaniel Popper documentando a história do bitcoin carrega esse título. É verdade que, por enquanto, essas moedas não cumprem as funções descritas acima de forma adequada. É verdade, também, que os intensos movimentos especulativos nos mercados de bitcoin, ethereum, ripple, litecoin, e tantos outros, ajudam a propagar a ideia de que essas são moedas de mentirinha, espécie de banco imobiliário virtual cuja vida deverá ser curta. Essa visão sobre as criptomoedas não é nova, conosco está desde o surgimento do bitcoin logo depois da crise de 2008. Em uma reportagem de 2011, a rede CNN advertiu que a criptomoeda havia sido criada “do nada”, que teria vida curta. Sete anos depois, não só virou bitcoin termo de amplo conhecimento geral, como surgiram diversas outras criptomoedas a partir de plataformas tecnológicas mais ou menos semelhantes às criadas pelo mítico Satoshi Nakamoto.

Como porcos, conchas de pérola, ou ouro, as criptomoedas têm valor intrínseco. Esse valor está nos sistemas operacionais, nas plataformas inovadoras de tecnologia como os ledgers distribuídos sem as quais esses tokens virtuais não existiriam. Poucos economistas questionam o valor da tecnologia que permite a existência de criptomoedas. Muitos, entretanto, desdenham das criptomoedas indissociáveis dessa mesma tecnologia. Trata-se de um paradoxo.

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Há muito que não entendemos ainda sobre as criptomoedas. Não recomendo ao leitor qualquer investimento aventureiro em algo cujas utilidade e repercussão sejam ainda desconhecidas. Contudo, há muita exploração intelectual a ser feita por economistas. A começar por responder pergunta básica que a profissão, até hoje, não conseguiu fazer satisfatoriamente. Afinal, o que é moeda?

* ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

 

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